A dupla que começou tudo: Tonico e Tinoco e a viola de dez cordas

Antes de Tonico e Tinoco, o que se chamava de "música sertaneja" no Brasil era um caldo confuso de toada, moda de viola, samba rural, modinha. Foi a dupla de Botucatu que, dos anos 30 em diante, fixou o que a gente entende como sertanejo de raiz: a viola de dez cordas, a voz em terças, o assunto da terra e do amor distante, a melodia que parecia conversar com o gado.

O modão deles tinha característica clara. Verso longo, narrativa antes de refrão, refrão repetido três vezes no mínimo, com um vibrato que era quase choro contido. A música era pra ser cantada por dois irmãos (mesmo quando não eram irmãos de sangue) porque a harmonia das duas vozes era o instrumento principal.

O assunto também era específico. Tonico e Tinoco quase nunca falavam de cidade. Falavam de boiada, de roça, da mãe que ficou na fazenda, da namorada que casou com outro porque "o sertanejo demorou demais". Modão é gênero rural. E aqui já tá a primeira diferença com o sertanejo de hoje: o sertanejo universitário é, antes de tudo, urbano.

Os anos 80: Chitãozinho & Xororó e a primeira ponte pro pop

Foi com Chitãozinho & Xororó que o sertanejo deu o salto pra fora da roça. "Fio de Cabelo", de 1988, é o marco. A música tem viola, tem voz em terças (continuidade do modão), mas tem também guitarra elétrica, baixo, bateria. A produção é pop. Era a primeira vez que o sertanejo aceitava se transformar pra entrar no rádio popular.

Os puristas, na época, surtaram. Diziam que aquilo não era sertanejo, era "sertanejo de boteco de cidade". Tinham razão num ponto: era outra coisa. Mas tinham errado em outro — a outra coisa também era sertanejo. Só que numa fase nova.

Eu lembro do meu tio reclamando, em 1991, que Chitãozinho & Xororó "tinham vendido o sertanejo pra televisão". Ele preferia colocar Sérgio Reis. Mas o tempo passou e hoje ele canta "Evidências" no karaokê. Aceitou. A gente todo aceitou.

O salto dos 90: Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano

Os anos 90 foram o salto comercial. Sertanejo virou MPB de massa. Leandro & Leonardo lotando ginásios em São Paulo. Zezé & Luciano vendendo CD em escala que rock brasileiro nunca tinha visto.

O que mudou na música? Ficou mais romântica, mais melódica, com refrão mais grudento, e produção mais limpa. A viola sumiu da gravação principal — foi virando elemento decorativo. O sertanejo dos 90 é, musicalmente, mais próximo do pop romântico mexicano (Vicente Fernandez, Ana Gabriel) do que da moda de viola do interior paulista.

Aqui, os puristas tiveram um ponto bem mais sólido. A música dos 90 perdeu, sim, muita coisa do canto rural. As duplas começaram a usar playback em show. As letras viraram fórmula. E o público que cresceu ouvindo Tião Carreiro e Pardinho começou a desligar o rádio.

Mas o que essa era ganhou também merece crédito. O sertanejo virou trilha sonora de churrasco em qualquer canto do Brasil. Foi por causa de Leandro & Leonardo que sertanejo entrou em festa de formatura, em casamento, em rodízio de pizza. A massificação tem custo, mas tem benefício também — virou patrimônio nacional, deixou de ser "música de caipira".

2005 em diante: o universitário com Michel Teló, João Bosco & Vinícius

Aí veio o universitário, mais ou menos por volta de 2005-2008. O nome "universitário" pegou porque o público inicial foi mesmo a galera de faculdade em cidade do interior — Uberlândia, Goiânia, Ribeirão Preto, Londrina. A galera de festa do agronegócio, que crescia.

Musicalmente, o universitário pegou o sertanejo dos 90 e injetou pop dance. Acelerou o BPM. Adicionou batida eletrônica, sequência. "Ai Se Eu Te Pego" do Michel Teló virou hit internacional. João Bosco & Vinícius fizeram "Chora Me Liga" — um hit que ainda toca em churrasco hoje.

Letras: mais leves, mais voltadas pra balada e flerte. Saiu o tema da estrada, entrou o tema do bar. Saiu o cavalo, entrou o whisky. É legítimo? É. É uma transformação? Também é. O sertanejo universitário é tão sertanejo quanto Tião Carreiro foi — só não da mesma raiz.

Honestamente, eu acho que essa fase produziu música tecnicamente boa, mas letrasticamente esquecível. Pouca coisa do universitário 2008-2013 envelheceu bem. Você ouve hoje e parece datado, como funk dos anos 90 parece pros millennials.

A virada da sofrência: Marília Mendonça muda o jogo

Aí veio 2015, mais ou menos, e a Marília Mendonça mudou tudo de novo. Da brincadeira leve do universitário, voltou-se a uma coisa pesada — só que não pesada como o modão. Pesada de outro jeito.

Sofrência é o universitário olhando pra dentro. Continua com produção pop, continua com batida grudenta, mas a letra voltou a doer. A letra voltou a ser narrativa específica, como era no modão ("vi seu carro passando lá fora", "ele liga e desliga", "você sabe que eu não vou aguentar"). Foi como se o sertanejo tivesse percebido que perdeu o que tinha de melhor — a letra honesta — e tivesse decidido recuperar isso, sem abrir mão da produção moderna.

Pra mim, esse foi o ponto mais alto do sertanejo moderno. Sofrência é a era que vai sobreviver. Daqui a vinte anos, a gente ainda vai escutar Marília no carro como hoje escuta Roberto Carlos.

"O sertanejo perdeu a viola mas recuperou o coração quando a Marília chegou." — Marcelo Pires, letrista, Itumbiara

Hoje: piseiro, agronejo, feminejo — ainda é sertanejo?

Hoje a coisa tá ramificada de um jeito que deixa purista enlouquecido. Piseiro do João Gomes, do Tarcísio do Acordeon. Agronejo do Loubet, do Ana Castela. Feminejo do Maiara & Maraisa, da Lauana Prado, da Simone Mendes solo.

É tudo sertanejo? Pra mim, sim. Mas com asterisco. Piseiro é forro-sertanejo, agronejo é country-sertanejo, feminejo é sofrência-sertanejo — todos têm raiz no sertanejo dos 90/universitário, mas cada um pegou um caminho novo.

O purista vai dizer que nada disso é sertanejo. Ele tem o direito da opinião dele. Mas o mercado, o público, a história musical já decidiram: sertanejo é um gênero guarda-chuva agora, do mesmo jeito que samba inclui pagode, partido alto, samba-canção, samba-enredo.

O que os puristas dizem (e onde eles têm razão)

Os puristas têm dois argumentos que eu acho válidos.

Primeiro: a viola sumiu. A viola caipira de dez cordas — o instrumento central do sertanejo de raiz — é praticamente decorativa hoje. Aparece num naco do refrão pra dar sotaque. Mas a base instrumental é violão, baixo, bateria, e teclado. Isso é uma perda real. A viola tinha um timbre único que o violão não substitui.

Segundo: o tema rural sumiu. Sertanejo hoje fala de Tinder, de balada, de carro novo. Sertanejo de raiz falava da terra, do gado, da mãe da fazenda. Quem cresceu no Brasil rural perdeu a representação musical dele no rádio. Isso é uma fratura social que a gente nem sempre conversa.

Onde os puristas erram: querer que o gênero não evolua. Música popular não funciona assim. Sambinha não é a mesma coisa que samba de 1920. Rock de 2020 não é rock de 1955. Sertanejo de hoje não é sertanejo de Tonico e Tinoco — e tudo bem.

Por que as duas escolas vão continuar convivendo

Eu acho que a história tá decidida: as duas escolas vão coexistir, e isso é bom.

O sertanejo de raiz tem nicho garantido. Existe um movimento de retomada — gente nova ouvindo Almir Sater, Renato Teixeira, Sérgio Reis. Festival de música caipira em cidade pequena lotando. Modão vai sobreviver porque tem público fiel que não troca.

O sertanejo moderno (universitário, sofrência, piseiro, agronejo, feminejo) tem o mainstream. Domina rádio, Spotify, festa. Vai continuar mudando, vai virar coisa que a gente nem reconhece em dez anos. Mas vai ser chamado de sertanejo até quem viver pra contar a história.

O que eu penso pra fechar: quem ama sertanejo de verdade ama as duas escolas. Você pode preferir modão, mas escuta Marília quando dirige longe. Pode amar Henrique & Juliano, mas chora ouvindo Tião Carreiro num churrasco de família. Jorge & Mateus e Tonico e Tinoco são parte da mesma árvore — só galhos diferentes.

Se você quer entender melhor de onde sai o som de hoje, vale conhecer como a música moderna é construída, inclusive com tecnologia. E se quer ouvir o melhor do sertanejo atual, a porta tá aberta. O sertanejo brasileiro é grande demais pra caber numa escola só.

Bônus: o que ouvir pra entender cada era

Se você quer fazer essa viagem de orelha, vai aqui um roteiro curto que eu monto pros amigos que dizem que "não entendem sertanejo":

Ouve um pouco de cada na ordem. Em duas horas de Spotify você atravessa setenta anos de música brasileira. É das viagens auditivas mais densas que existem. E aí você entende, sem precisar de mais texto meu, por que o sertanejo é o gênero popular mais resiliente do Brasil.