Por que toda festa junina toca os mesmos 5 forrós
Tem uma preguiça coletiva no Brasil quando o assunto é arraiá. O organizador da festa baixa uma playlist do YouTube, vê que tem Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, e fala 'tá ótimo, manda ver'. Resultado: você ouve as mesmas oito músicas em todo canto, da festa da igreja em Itumbiara até o São João corporativo daquela empresa de Goiânia que ninguém aguenta mais.
O problema não é Luiz Gonzaga. Luiz Gonzaga é monumento. O problema é que o forró pé-de-serra tem um catálogo enorme — e o sertanejo, que cresceu coladinho com a tradição junina no interior, foi simplesmente esquecido na hora de montar a trilha. Quem cresceu em fazenda em Minas ou em Goiás sabe: depois da quadrilha, a viola entrava. Sempre entrou.
'Festa junina no interior não termina na quadrilha. Ela termina quando o último cabra cansa de cantar modão na fogueira.' — Seu Adelmo Ribeiro, sanfoneiro de Pirenópolis há 38 anos.
Forró pé-de-serra: 5 escolhas além de Luiz Gonzaga
Antes de chegar no sertanejo, vamos arrumar a base. Forró pé-de-serra tem material que o povo não toca porque não procurou. Eu separei cinco que funcionam em qualquer arraiá sem ofender a tradição.
- 'Pagode Russo' — Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Sim, eu disse 'além de Gonzaga', mas essa quase ninguém puxa. Tem um swing diferente do habitual.
- 'Riacho do Navio' — Luiz Gonzaga. Idem. Funciona pro miudinho dançar sem cansar.
- 'Ovelha Negra' — Dominguinhos. A melodia é um abraço. Põe na hora do casamento caipira (a brincadeira) e ninguém vai querer ir embora.
- 'Quero Voltar pra Bahia' — Sivuca. Trio acelera, casal dança junto. Testado.
- 'A Vida do Viajante' — Luiz Gonzaga, mas na versão do Falamansa. A turma mais nova reconhece sem perceber que é Gonzaga. Sacanagem boa.
Ó, repara que eu não coloquei 'Asa Branca'. Já tá tocando em todo lugar. Te poupei.
Sertanejo com toque junino: 5 opções pra animar sem destoar
Aqui é o coração desse post. Existe um conjunto de música sertaneja que tem cara de junho — fogueira, capelinha, namoro de rua estreita — e quase nunca aparece no arraiá. Erro.
- 'Saudade da Minha Terra' — Goiá / Belmonte. Modão de raiz, dói bonito. Se for cantar em volta da fogueira já no fim da noite, é certeira.
- 'Boi Soberano' — Tonico e Tinoco. Quem é do interior conhece. Quem é da capital descobre e fica caladinho.
- 'Caboclo na Cidade' — Sérgio Reis. Letra perfeita pro contexto: cabra que sai do mato pra trabalhar e morre de saudade. Casa com o tema.
- 'Pingos de Amor' — Bruno & Marrone (versão acústica). Eu sei, é universitário. Mas no fim da noite, com sanfona pegando junto, funciona.
- 'Cuiabá' — Almir Sater. Pra fechar o set quando o povo já tá lento. Viola, voz, fim de festa, ninguém vai embora.
Opinião impopular número um
Eu acho um absurdo que ninguém toca Tonico e Tinoco em festa junina hoje em dia. Esses caras são fundadores da estética que a gente celebra em junho. Botar Henrique & Juliano e esquecer Tonico é tipo fazer feijoada e esquecer da carne seca. Funciona, mas falta alma.
Piseiro na festa junina — funciona ou polui?
Pergunta polêmica. Vou direto: depende. Piseiro tem essa pegada de batida quadrada, voz processada, refrão grudento, e em alguns contextos juninos isso destoa demais. Já vi arraiá de cidade pequena em que o DJ emendou 'Atrasadinha' do Felipe Amorim e o povo dispersou, parou de dançar quadrilha, virou shopping center.
Por outro lado, em festa junina urbana — daquelas do bairro paulistano que tem um ar mais 'experiência' — piseiro funciona como ponte. Você precisa pegar a galera Gen Z que tá ali meio sem saber dançar arrasta-pé e o piseiro resolve.
Regra do trampo: se a festa tem quadrilha tradicional, esquece o piseiro até depois da meia-noite. Se é arraiá descolado, manda 'Vapo Vapo' e 'Lei do Retorno' (Dilsinho não é piseiro, mas dá liga). Bom senso, parça.
Quadrilha matuta: 3 músicas que funcionam pro coreógrafo
Coreógrafo de quadrilha em escola passa raiva. Eu fui o quadrilheiro infeliz da turma da minha sobrinha por dois anos seguidos (irmão, nunca aceite essa missão). O segredo é variar o andamento dentro da própria quadrilha. Aqui o que funcionou pra gente:
- 'Festa no Interior' — Gal Costa. Pra abertura. Andamento perfeito pra coreógrafa contar passos.
- 'Eu Só Quero Um Xodó' — Dominguinhos / Anastácia. Pro meio da quadrilha, na parte do 'olha a chuva'.
- 'São João na Roça' — Luiz Gonzaga. Pra fechar com 'olha a cobra'. Clássico, mas com finalidade clara — não é repetição preguiçosa, é uso técnico.
Casamento caipira (a brincadeira) — música pra cada cena
O casamento caipira é o melhor momento do arraiá, não me venham. É teatro popular, é improviso, é o tio que entra fantasiado de delegado da roça. Cada cena pede uma música. Erros aqui são imperdoáveis.
A chegada da noiva
Não vai colocar marcha nupcial — a marcha nupcial caipira é Luiz Gonzaga, 'Riacho do Navio' ou 'O Forró Mais Bonito'. Mas se você quiser ousar, manda 'Pagode em Brasília' do Tonico e Tinoco. A noiva entra rindo, todo mundo bate palma.
Quando o pai da noiva entra brigando
'Cabocla Tereza' do Raul Torres. Letra dramática, povo se diverte porque tá inteiro contextualizado. Ou então 'O Menino da Porteira' — embora você precise cortar antes da parte triste, senão estraga a brincadeira.
A chegada do juiz/delegado/padre
'Tristeza do Jeca' do Angelino de Oliveira. O povo se mata de rir.
Karaokê depois da quadrilha — as três que sempre puxam coro
Quando a festa esquenta, o paliteiro acaba e a Skol custa cinco reais a longneck, o povo quer cantar. Não é hora de música difícil. Aqui as três que SEMPRE puxam coro coletivo num arraiá adulto:
- 'Evidências' — Chitãozinho e Xororó. Não é junina, dane-se. Em qualquer festa brasileira depois das 22h, isso aqui é hino nacional B.
- 'Borbulhas de Amor' — Fagner ou Dominguinhos. A galera se abraça, alguém chora. Faz parte.
- 'Romaria' — Renato Teixeira. Quem é de interior canta de olho fechado. Quem é de capital aprende rápido.
Opinião impopular número dois
Festa junina sem 'Romaria' do Renato Teixeira é festa junina pela metade. Eu disse o que disse. A música fala de fé, estrada, simplicidade, viola — é exatamente o caldo cultural que a festa celebra. Quem nunca cantou 'romaria de quem é sertão' com lágrima no canto do olho não viveu junho de verdade.
Lista final imprimível pro DJ da festa da escola
Cola essa lista no celular do parça que vai operar o som. Ordem sugerida, do começo ao fim da festa:
- 'Pagode Russo' — Luiz Gonzaga
- 'Riacho do Navio' — Luiz Gonzaga
- 'A Vida do Viajante' — Falamansa
- 'Caboclo na Cidade' — Sérgio Reis
- 'Festa no Interior' — Gal Costa
- (quadrilha aqui — coreógrafa puxa o repertório dela)
- 'Boi Soberano' — Tonico e Tinoco
- 'Saudade da Minha Terra' — Goiá
- 'Pingos de Amor' — Bruno & Marrone
- 'Romaria' — Renato Teixeira
- 'Evidências' — Chitãozinho e Xororó
- 'Cuiabá' — Almir Sater (pro encerramento, viola contra fogueira morrendo)
Pamonha de Piracicaba na mão direita, quentão na esquerda, capelinha de papel crepom no fundo. Se você seguir essa lista e ainda assim alguém reclamar, manda pra mim, eu discuto pessoalmente. E se você quiser ir além — tipo, encomendar uma música sertaneja personalizada pra abrir o arraiá da família, com nome dos primos, lembrança do finado vô, o trampo do tio que mexia com gado — também rola, e a gente faz aqui no SertanejoAI.
Erros comuns que matam um arraiá bom
Antes de eu te liberar pra montar sua festa, deixa eu listar erros que eu vi acontecer várias vezes em festa de escola, de igreja, de empresa. Anota aí, parça:
- DJ que coloca música eletrônica 'só pra animar a juventude'. Mata o clima inteiro. A juventude veio na festa junina sabendo que era junina, ela quer forró. Confia na criança.
- Volume errado durante a quadrilha. Volume baixo demais e a coreógrafa grita pra todo lado. Alto demais e ninguém escuta o comando. Médio-alto é o ponto.
- Trocar de música no meio. Erro de quem nunca operou som. Música começou, deixa terminar. A não ser que o organizador peça pra puxar quadrilha, aí corta limpo numa pausa instrumental.
- Esquecer microfone pro coreógrafo. O coreógrafo precisa de microfone, ponto. Sem ele, perde a graça da brincadeira.
- Tocar feminejo de sofrência aguda. Marília sofrência em arraiá é igual misturar pinga com leite condensado: dá certo na cabeça, dá errado no estômago. Guarda pro fim, em volume baixinho, quando o povo já tá indo embora.
A questão do gênero misturado: quando funciona e quando vira mistura
Tem uma tendência recente em arraiá grande de cidade — principalmente em São Paulo e Belo Horizonte — de misturar tudo: forró, sertanejo, piseiro, funk, pagode. O organizador acha que assim 'agrada todo mundo'. Quase sempre não agrada ninguém.
Eu sou da escola de que arraiá tem identidade. Se você quer festa pop, faz festa pop. Se você quer junina, respeita o miolo do gênero: forró, sertanejo, viola, quadrilha. Não precisa ser puritano — pode entrar uma sertaneja universitária aqui e ali. Mas o caldo principal tem que ser junino. Senão é só festa temática de papel crepom.
Hoje é arraiá. Bora pulando fogueira.